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CAPTULO 34 
OUTRAS FIGURAS DE LINGUAGEM 
FIGURAS DE CONSTRUO 
ELIPSE 
Elipse  a omisso de termos que facilmente se podem subentender. 
Exemplos: 
"Na rua deserta, nenhum sinal de bonde." (CLARICE LISPECTOR) 
"Oxal tenham razo." (MACHADO DE Asssis) 
"Mas a lua, fitando o sol, com azedume: 
- Msera, tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume!" (MACHADO DEASSIS)
"De mau corvo, mau ovo." (PRovRBIo) 
No primeiro exemplo, est implcito, ou melhor, 'mentado', o verbo haver na forma negativa (no haver); no segundo, a conjuno integrante que; no terceiro, o verbo 
dizer; no ltimo, o verbo provir ou outro de significao equivalente. 
De belo efeito  a supresso da palavra Senhora (da expresso Nossa 
Senhora), nestes versos de Manuel Bandeira: 
"Os cavalinhos correndo, 
E ns, cavales, comendo... 
O Brasil politicando, 
Nossa! A poesia morrendo... 
O sol to claro l fora, 
O sol to claro, Esmeralda, 
E em minhalma - anoitecendo!" 
Alis, nestes versos h vrias vezes a elipse do verbo estar. 
510 
fr 
ZEUGMA 
Zeugma  a omisso de termo anteriormente expresso, que se subentende com outra flexo. 
Exemplo: 
"Nem ele entende a ns, nem ns a ele." (Os Lusadas, V, 28). 
Na segunda orao est oculto o verbo entender, porm na forma 
entendemos. 
ASSNDETO 
Assndeto  a falta de conjuno entre elementos coordenados. 
O emprego adequado desta figura comunica ao estilo brevidade e rapidez. 
Exemplo: 
"Luciana, inquieta, subia  janela da cozinha, sondava os arredores, bradava com desespero, at que ouvia duas notas estridentes, localizava o fugitivo, saa de 
casa como um redemoinho, empurrava as portas, estabanada: - Quero o meu periquito." 
(GRAcILIAN0 RAMOS) 
RETICNCIA 
Reticncia  a suspenso intencional do pensamento, quando o silncio parece mais expressivo do que a palavra. 
Exemplo: 
"Ns dois... e, entre ns dois, implacvel e forte, 
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte..." (OLAvo BILAc) 
PLEONASMO 
Pleonasmo  o emprego de palavras desnecessrias ao sentido. 
H o pleonasmo grosseiro, decorrente da ignorncia da significao 
das palavras (hemorragia de sangue, subir para cima), e o literrio, 
que serve  nfase, ao vigor da expresso. 
511 
Exemplos: 
"(...) era vspera de Natal, as horas passavam, ele devia de querer estar ao lado de i-Dijina, em sua casa deles dois, da outra banda, na Lapa-Laje." (GUIMARES 
ROSA) 
"Era como se todo o mundo que ele pisara com os ps, que vira com os seus olhos, que pegara com as suas mos, se perdesse num instante." (Jos UNS DO REGO) 
POLISSNDETO 
Polissndeto  a reiterao do conetivo entre elementos coordenados. 
Exemplo: 
"No aconchego 
Do claustro, na pacincia e no sossego, 
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!" (OLAVO BILAC) 
HIPLAGE 
Hiplage consiste em atribuir-se a uma palavra o que pertence a outra da mesma frase. 
Exemplos (de Ea de Queirs): 
"(...) as lojas loquazes dos barbeiros." 
(por: as lojas dos barbeiros loquazes) 
"As tias, fazendo as suas meias sonolentas." 
(por: as tias sonolentas fazendo as suas meias) 
HIPRBATO 
Hiprbato  a inverso da ordem natural das palavras na orao, 
ou a da ordem das oraes no perodo. 
Observao: 
Recebe particularmente o nome de anstrofe, quando se pospe uma preposio 
ao seu conseqente. * 
"Das idades atravs" (CASTRO ALvE5) 
"As tribos erram do areal nas vagas.. " (CASTRO ALVES) 
* Cf. Fernando Lazaro Carreter, Diccionario de trminos filolgicos, Madri, Gredos, 1953, p. 37. 
512 
Exemplos: 
"A Deus pedi que removesse os duros 
Casos que Adamastor contou futuros." (Os Lusadas, V, 60) 
"A grita se alevanta ao cu da gente." (Os Lusadas, II, 91) 
"O corao no peito que estremece 
De quem os olha, se alvoroa e teme." (Os Lusadas, VI, 64) 
"Tambm deixo a memria que os obriga 
A grande nome, quando alevantaram 
Um por seu capito, que peregrino 
Fingiu na cerva esprito divino." (Os Lusadas, 1, 26) 
Interpretao das duas ltimas passagens camonianas: 
a) Embora parea,  primeira vista, referir-se a peito, a orao que estremece prende-se a corao. 
O sentido  este: 
O corao, que estremece no peito de quem os olha, se alvoroa e teme. 
b) O artigo um determina peregrino. 
O sentido  este: 
 . . quando alevantaram por seu capito um peregrino, que fmgiu na cerva esprito divino. 
Em poesia (muitas vezes por necessidade mtrica), tal figura no 
desapareceu do gosto contemporneo: 
"Essas que ao vento vm / Belas chuvas de junho!" (JOAQUIM 
CARDOZO) 
SNQUISE 
Snquise  a inverso por tal forma violenta dos termos da frase, 
que o sentido se torna difcil de perceber. 
Exemplo: 
"Lcias, pastor - enquanto o sol recebe, 
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia, 
Em sede abrasa, qual de amor por Febe, 
Sede tambm, sede maior, desmaia." (ALBERTO DE OLIVEIRA) 
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Eis a interpretao: 
Lcias, pastor, enquanto o manso armento, mugindo, recebe o sol e ao largo espraia -, abrasa em sede, qual desmaia de amor por Febe, sede tambm, sede maior. 
ANFORA 
Anfora  a repetio da mesma palavra no comeo de cada um dos 
membros da frase. 
Exemplo: 
Grande no pensamento, grande na ao, grande na glria, grande 
no infortnio, ele morreu desconhecido e s. 
Podem ser vrias as palavras que se repetem: 
Deus te abenoe, amor, por seres bela! 
Deus te abenoe, amor, por seres pura! 
Eis um admirvel exemplo de Rui: 
"Ei-la a a clera santa! Eis a ira divina! 
Quem, seno ela, h de expulsar do templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simonaco? quem, seno ela, exterminar da cincia, o apedeuta, o plagirio, o charlato? 
quem, seno ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? quem, seno ela, varrer dos servios do Estado o prevaricador, o concussionrio e o ladro 
pblico? quem, seno ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituio poltica, ou a tirania? quem, seno ela, arrancar a defesa da ptria  cobardia,  inconfidncia, 
ou  traio? Quem, seno ela, ela a clera do celeste inimigo dos vendilhes e dos hipcritas? a clera do justo, crucifixo entre ladres? a clera do Verbo da 
verdade, negado pelo poder da mentira? a clera da santidade suprema, justiada pela mais sacrflega das opresses?" 
EPSTROFE 
Epstrofe  a repetio da(s) mesma(s) palavra(s) no fim de cada 
um dos membros da frase. * 
* Essas duas correspondncias rfmicas (a anfora e a epfstrofe) eram particular- mente queridas de Augusto Frederico Schmidt, em cujos poemas abundam como um 
dos traos mais caractersticos da sua arte. 
514 
Exemplos: 
Parece que eles vieram ao mundo para ser ladres; nascem de 
pais ladres, criam-se em meio a ladres, morrem como ladres. "Gastos largos, esperanas do mundo largas, vaidades largas, conscincias largas, com apertos e estreitezas 
se ho de castigar." (HEITOR PINTO) 
SMPLOCE 
Smploce  a repetio da(s) mesma(s) palavra(s) no comeo e no 
fim de cada um dos membros da frase. 
Exemplo: 
Hoje, no quero pensar seno na arte nova; hoje, no me agrada 
cantar seno a cano nova. 
CONCATENAO 
Concatenao consiste em iniciar-se cada um dos membros da frase 
com a ltima palavra do membro anterior. 
Exemplo: 
O mau-humor produz a impacincia; da impacincia nasce a clera; da clera, a violncia; e a violncia conduz ao crime. 
CONVERSO 
Converso  a repetio simtrica, com os termos invertidos. 
Exemplo: 
"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada 
E triste, e triste e fatigado eu vinha. 
Tinhas a alma de sonhos povoada, 
E a alma de sonhos povoada eu tinha..." (OLAvo BILAc) 
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FIGURAS DE PENSAMENTO 
ANTTESE 
Anttese  a contraposio de uma palavra ou frase a outra de significao oposta. 
Exemplo: 
"Amigos e inimigos esto, amide, em posies trocadas. Un nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal." (Rui) 
PARADOXO 
Paradoxo  a reunio de idias contraditrias num s pensamento 
o que nos leva a enunciar uma verdade com aparncia de mentira. Estriba o paradoxo na diversidade de modos de ver com que apre 
ciamos as coisas e os seres; quando falamos, por exemplo, dos rico pobres, estamos a conciliar dois julgamentos distintos: pensamos n sua riqueza porque tm dinheiro, 
mas simultaneamente na sua pobreza por sabermos do vazio da vida que vivem, ou da sua aridez de alma.. 
Todo paradoxo encerra, em ltima amulise, uma anttese, porm um 
anttese especial, que, em vez de opor, enlaa idias contrastantes. 
Exemplo: 
Quando Cames, em clebre soneto sobre as contradies do Amor 
disse que esse sentimento 
" dor que desatina sem doer", 
criou um dos mais galantes paradoxos do lirismo portugus. 
Eis outro belo exemplo, do nosso Hermes Fontes: 
"Este Amor, que, afinal,  a minha vida 
e que ser, talvez, a minha morte, 
amor que me acalora e me intimida, 
que me pe. fraco quanto me pe forte; 
este Amor, que  um broquel e  uma ferida, vai decidir, por fim, a minha sorte." 
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CLMAX 
Clmax  uma gradao ascendente, com a qual procura o escritor 
acumular efeitos expressivos e conceituais cada vez mais empolgantes, 
at alcanar a culminncia emocional. 
A gradao descendente chama-se anticl(max. 
Exemplos: 
"No aquieta o p, nem pode estar quedo: anda, corre, voa..." 
(VIEIRA) 
"To dura, to spera, to injuriosa palavra  um No." 
(VIEIRA) 
Agora, um exemplo de anticl(max: 
"Eu era pobre. Era um subalterno. Era nada." (MONTEIRO LoBATo) 
PRETERIO 
Preterio  a figura pela qual o escritor finge no afirmar o que, 
na realidade, est afirmando. 
Exemplo: 
"No vos pintarei os tumultos, a grita da multido: o sangue de todos os lados, o corpo do filho estendido sobre o cadver do pai, as mes em lgrimas correndo com 
os filhinhos ao colo, os irmos erguendo uns contra os outros as espadas fratricidas, 
o incndio, a runa, a desolao por toda parte..." (COSTA E 
CUNHA) 
ANTFRASE 
Antfrase  a expresso de uma idia pela idia contrria, quase sempre com entoao irnica. 
Exemplos: 
Bonita resposta! 
(com o sentido de: Que resposta inadequada!) 
517 
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4 
F 
No primoroso e pungentssimo conto intitulado 'Negrinha', Monteiro Lobato retrata uma mulher perversa, a dona Incia, uma das mais 
cruis personagens da galeria de tipos criados pelo escritor. 
A certa altura do conto, escreveu o seguinte: 
"tima, a dona Incia. Mas no admitia choro de criana. Ai! 
Punha-lhe os nervos em carne viva." 
Pouco depois, insiste no emprego da antfrase: 
"A excelente dona Incia era mestra na arte de judiar de crianas." 
EUFEMISMO 
Eufemismo  meio pelo qual se evita uma palavra ou expresso molesta, odiosa ou triste, substituindo-a por outra palavra ou expresso 
menos desagradvel. 
Exemplo: 
faltar  verdade, em vez de mentir. 
Para atenuar a violncia do emprego do verbo matar, Cames se 
valeu do eufemismo tirar ao mundo, na conhecida passagem do episdio de Ins de Castro: 
"Tirar Ins ao mundo determina, 
Por lhe tirar o filho que tem preso..." (Os Lusadas, III, 123) 
A idia de morrer tem-se prestado muito  metaforizao eufmica. 
Originalssimo exemplo recolhe-se em Machado de Assis, logo no incio de Dom Casmurro: 
"Os amigos que me restam so de data recente; todos os antigos 
foram estudar a geologia dos campos santos." 
E este de Jorge Amado: 
"Nada restar de Guma. Somente uma histria que o velho Francisco legar aos homens do cais, quando for com Janana. " 
* Janafna  um dos sete nomes de lemanj. 
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Manuel Bandeira chamou-lhe,  Morte, - A Indesejada das Gentes e A Dama Branca. 
LITOTE 
Litote  uma variedade do eufemismo, em que se afirma algo pela 
negao do contrrio. 
Ao dizermos - Ele no v (em lugar de - Ele  cego), fazemos 
a seguinte operao mental: a idia oposta  de ser cego  a de ver; 
ento, negamos esta ltima (o contrrio de ver  - no ver) 
Exemplos: 
"Tu no ests bom, Jos Rodrigues." (MACHADO DE ASSIS) 
" beira do negro poo 
debruo-me; e nele vejo, 
agora que no sou moo, 
um passarinho e um desejo." (CARLOSDRUMMONDDEANDRADE) 
ALUSO 
Aluso  a referncia a um fato ou personagem (vivo, histrico, mitolgico, etc.) conhecidos. 
Exemplo: 
"Qual Prometeu, tu me amarraste um dia 
Do deserto na rubra penedia, 
Infinito gal! 
Por abutre - me deste o sol ardente! 
E a terra de Suez foi a corrente 
Que me ligaste ao p..." (CASTRO ALvES) 
Nesta imagem riqussima, o poeta alude a Prometeu, vulto da mitologia clssica, na qual figura como iniciador da primeira civilizao humana. Aps ter criado o homem 
do limo da terra, ambicionou dar-lhe alma, e, com este fito, roubou o fogo do cu. 
Para castig-lo, Jpiter ordenou a Vulcano que o acorrentasse ao Cucaso, onde um abutre, pelos tempos fora, lhe devoraria o fgado, sempre 
renascente para eternizar-lhe a dor... 
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Sobre este tema, escreveu squilo a tragdia Prometeu acorrentado, obra sublime, que apresenta a personagem como o representante divino da humanidade. Tal obra foi 
vertida ao francs, com admirvel rigor, por Leconte de Lisle. * Dela existe a exegese literria, universalmente famosa, de Maurice Croiset, ** o insigne helenista, 
professor do Collge de France. 
* Leconte de Lisle, Eschyle, traduction nouveile, Paris, Alphonse Lemerre, sld., pp. 3 a 47. 
** Maurce Croit, Eschyle: udes sur 1 'invendon dramarique dans son th,tre, Collection d'Etudes Anciennes, Paris, 1928, pp. 131 a 164. 
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